A EVOLUÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA
Carvalho Branco

Ao se tratar da evolução da Literatura Brasileira, tem-se, primeiro, que esclarecer o que se entende por literatura Brasileira.

Será a Literatura produzida em terras brasileiras?

Será a Literatura produzida por brasileiros, estejam onde estiverem?

Ou será a literatura produzida ao estilo brasileiro?...

Literatura Brasileira, ao que eu entendo, é a Literatura ao estilo brasileiro, produzida por brasileiros, ao sabor do jeitinho brasileiro.

Em sendo assim, quando aqui aportaram os portugueses, nos idos de 1500 e cá encontraram tribos indígenas, cada uma com sua cultura particular, que não incluía uma literatura, resolveram eles tornarem-se "civilizadores" daquele povo e, para tanto, trouxeram para cá os jesuítas, que chegaram entusiasmados, cheios de zelo apostólico, buscando catequizar a gente local, convertê-la ao cristianismo, buscaram conhecer sua língua, comparando-a com a língua portuguesa, para uma melhor comunicação entre as duas partes... Através da encenação (teatro), buscaram a catequese. Nada disso, porém, era Literatura brasileira; era Literatura portuguesa feita para aplicar à gente nativa. A grande figura deste cenário foi José de Anchieta.

Assim prosseguiu, no Brasil: uma literatura importada, embora aqui construída, nada tinha realmente de nossa – a chamada Literatura de Transplantação, da qual a carta de Caminha, em 1500, é marco inicial e é considerada uma obra do Pré-Renascimento literário em território brasileiro, mas é, na realidade, obra da Literatura Portuguesa. A este, seguiram-se vários outros documentos que escritos por portugueses ou brasileiros já, eram impregnados do estilo clássico português, como Frei Vicente Salvador, primeiro historiador brasileiro.

Seguiu-se a ela, uma Literatura de Transição (1780 – 1836), quando alguns poucos brasileiros (assim ditos por terem nascido em solo ou águas pertencentes a nosso território) deram início a sua produção literária e que tem por marco divisório a obra do Cônego Fernandes Pinheiro [1825 – 1876] – iniciador da nossa crítica literária, ainda estruturada numa forma literária portuguesa e após a qual outros escritores brasileiros, com uma educação básica portuguesa, produziram suas obras: Gregório de Matos, Mendonça Furtado, Frei Euzébio de Matos (Irmão de Gregório), Manuel Botelho de Oliveira (poesias), Sebastião da Rocha Pita (historiador), Bartolomeu de Gusmão, duas sobrinhas dele e Alexandre de Gusmão e mais alguns, todos ainda numa boa forma portuguesa, mas num estilo em que quase já se pode adivinhar uma escondida vontade de despontar algo diferente, mas nada da produção desses pode ser considerada ainda Literatura Brasileira realmente, Literatura esta que se inicia, na verdade, com um grupo de escritores mineiros - a trilogia Andrada: José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco; uma literatura arcádica, ou seja, de academicismo: rigorosa forma lingüística e literária segundo as normas da Letras portuguesas, imbuída de um conteúdo brasileiro, recheada de bucolismo e nacionalismo brasileiros. A Literatura Brasileira iniciava-se já numa fase pré-romântica, na realidade possibilitada pela vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, em 1808, que levou à abertura dos nossos portos a todas as nações, o que incrementou nossas finanças, dando maior abertura aos anseios da nossa população, renova-se a mente do povo, busca-se o conhecimento, a evolução cultural, incentiva-se a Arte...

Nas Letras, vão despontando, pouco a pouco, algumas figuras, destacam-se nomes. A Literatura Brasileira Romântica iniciou-se com Gonçalves Dias (1823 – 1864), prosseguiu com Álvares de Azevedo (1831 – 1852), Fagundes Varela (1841 – 1875) e Casimiro de Abreu (1839 – 1860), culminando em Castro Alves, no que se refere à poesia.

Não se pode desdenhar Domingos Gonçalves de Magalhães (1811 – 1882), com o seu "Suspiros Poéticos e Saudades" (1836), que foi escrito, em grande parte, quando seu autor estava na Europa - seu estilo era medíocre e ao gosto português, embora buscasse uma temática brasileira, como no seu "Confederação dos Tamoios", poema indianista, criticado por José de Alencar, justamente por não ser sua forma romântica, embora seu tema o fosse.

A partir do Romantismo, a língua e o estilo brasileiros passaram a ser pontos de maior relevo na Literatura Brasileira; a língua é de lenta evolução, na qual interfere o uso popular, além do "jeito" erudito, mas nacional, do homem culto se expressar, mas o estilo, esse é mais rápido, pois está intimamente ligado à versatilidade da criação do homem, culto ou não, que é algo que brota, em cachoeira, de forma espontânea nele, pelo que é rapidamente aceito. Toda essa questão continuou rolando através dos tempos, sem interrupção, sem uma maior tendência, sem total ruptura, subordinação ou imobilização da vinculação lingüística entre as nacionalidades portuguesa e brasileira.

Gonçalves Dias tentou a união entre a língua colonial brasileira e a língua clássica, na realidade, arcaica (mi, hi, imigo...), introduzindo o elemento tupi (Língua aliada a tema), como o prova seu poema "Y- Juca-Pyrama" (Aquele que vai morrer). José de Alencar (1829 – 1877), porém, procurou adotar uma língua tão espontânea e viva, quanto moderna e nobre, jamais recorrendo ao classicismo.

De Gonçalves Dias não se pode deixar de citar, como grande obra, a "Canção do Exílio", entre tantas outras famosas. Quanto a José de Alencar – o maior romancista romântico – gênero literário projetado pelo Romantismo, assim como a crítica, é vastíssima a sua produção, passando pelo indianismo, com "O Guarani" e "Iracema"; pelo regionalismo, com: "O Gaúcho" e "O Sertanejo" (do campo) e tantas obras mais; romances que caracterizam vários aspectos da vida brasileira. Os romances alencarianos, inspirados em diferentes aspectos da vida brasileira, apresentam linguagem elegante, harmoniosa, de fácil entendimento, agradavelmente sonora.

O romance romântico iniciara-se com qualidade inferior com Teixeira de Sousa (1812 – 1861) e prosseguira com Joaquim Manuel de Macedo (Moreninha – 1844), considerado criticamente, por sua melhor qualidade, o fundador do romance brasileiro e embora sua obra ainda seja medíocre, encanta a muitos.

Assim como muitos outros poetas, também muitos outros romancistas românticos podiam ser citados, como Manuel Antônio de Almeida e suas "Memórias de um Sargento de Milícias" (1854/1855) considerada, por tantos, obra-prima do romance brasileiro no que se refere ao estudo dos costumes coloniais, numa expressão pitoresca e irônica, é, na realidade, no referente ao literário em si, obra bastante pobre.

Quase todos os poetas e romancistas românticos escreveram para o teatro, gênero em alta no Romantismo e no qual devemos destaca o iniciador da comédia de costumes, Martins Pena (1815 – 1848).

Um outro romancista que não se pode deixar de mencionar por ser o marco entre o Romantismo e o Realismo é Franklin Távora (1842 – 1888) e seus romances nortistas e com sabores regionais, numa fase de pré-realismo, entre 1870 e 1880; desta fase, deve-se mencionar o jornalista maranhense João Francisco Lisboa (1812 – 1848) como primeiro grande ensaísta, fundador e redator do "Jornal de Timon" , cuja obra, além do valor histórico, destaca-se pela sutil percepção e profunda abordagem dos problemas, como opinam alguns.

Um outro romancista que não se pode deixar de mencionar por ser o marco entre o Romantismo e o Realismo é Franklin Távora (1842 – 1888) e seus romances nortistas e com sabores regionais, numa fase de pré-realismo, entre 1870 e 1880. A figura mais saliente desse movimento de renovação, o chamado pré-realismo, foi Tobias Barreto (1839 – 1889) – jurista, crítico, personalidade irradiante, tumultuosa, de grande influência na juventude brasileira, corroborada ela pela situação política do país, de decadência do Império com crescente entusiasmo pelo movimento republicano, num cenário em que ainda fervilhava a agitação abolicionista. A Literatura tornou-se espelho de tudo isso, acelerando seu processo de renovação, aparecendo novos tipos de poesia, romance, teatro e crítica literária; esta, que acompanhara a renovação poética romântica, terminou opondo-se aos antigos ideais, pregando novos moldes, iniciando novel fase, doando-nos nomes, tais como: Sílvio Romero, um continuador de Tobias Barreto e figura de centro na história de nossa cultura; José Veríssimo, crítico consciencioso e honesto; Araripe Júnior, o mais original dos três, como pensador.

A crônica cedeu lugar à Historiografia, que merece ser citada; seu fundador foi Francisco Adolfo de Varnhagen – Visconde de Poeto Seguro, que deixou, além da História Geral do Brasil, várias monografias sobre as Letras brasileiras. Não se podendo deixar de referenciar Capistrano de Abreu (1853 – 1927), Manuel de Oliveira Lima (1867 – 1928), Rocha Pombo (1857 – 1933) e outros mais.

No romance, destacaram-se: Inglês de Sousa (1853 – 1918); Alísio de Azevedo (1858 – 1913) com seu romance naturalista "O Mulato" e tantos outros famosos; Júlio Ribeiro, outro representante do naturalismo, com "A Carne" e Adolfo Caminho (1867 – 1897), com "A Normalista". O Naturalismo é um realismo acrescido de um cunho científico-materialista.

Realçamos ainda os nomes de Raul Pompéia (1863 – 1895) e seu "O Ateneu" e Machado de Assis (1839 - 1908), este disputando com Alencar o ser a figura central da Literatura Brasileira; uns, observando diferenciações estilísticas e o sentir popular da obra, opinam ser Alencar; outros, considerando a profundeza de conceitos e a riqueza psicológica da produção, dizem ser Machado.

Os primeiros romances de Machado: Ressurreição, Helena e A Mão e a Luva, ainda passeiam pelo espírito romântico; a partir de Iaiá Garcia, sua obra entra definitivamente no novo estilo: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro...

Machado "viajou" também pela poesia, pelo teatro , crítica e jornalismo.

Há que não se esquecer Coelho Neto, um dos mais completos escritores, pairando acima de movimentos e estilos, fiel, simplesmente, a sua condição de escritor, mas nela falava alto o instinto nacionalista, como bem o demonstram suas obras: A Conquista, Miragem... Buscando o termo exato, encontrava-o e usava-o, nem sempre entendido por outrem.

Como publicistas e oradores realistas temos Rui Barbosa (1849 – 1923) e Joaquim Nabuco (1849 – 1910).

Machado de Assis e Joaquim Nabuco foram, com outros, fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1896.

A poesia do período realista é denominada Parnasiana, pela sua estética: "a arte pela arte". Antes, porém, a reação ao Romantismo fora inaugurada pelos seguintes tipos de poesia: filosófico-científica, realista e socialista, o primeiro instigado por Sílvio Romero, que queria que os poetas tivessem uma intuição crítica do tempo, conhecimentos filosóficos e espírito científico renovador, sem embrenhar-se, a poesia, pela didática, mas sim pelas avenidas da beleza, veredas da verdade, alcançando o cimo da certeza colocado muito além da miragem da ilusão, conforme colocado em seu "Cantos do Fim do Século"; seus seguidores: Teixeira de Sousa, Prado Sampaio e Martins Júnior, tanto quanto ele, não conseguiram uma boa performance literária, nem filosófica-científica. Quanto à poesia realista (urbana e agreste), baseada na observação e não na idealização romântica, pecava muitas vezes pela forma, ainda romântica e a socialista, que procurava traduzir as aspirações da época: humanidade consciente, trabalho, progresso e justiça social, mas, segundo o próprio Antero de Quental, os poetas da época não compreendiam a sua geração, porque ela própria não se compreendia bem e às suas verdadeiras aspirações. Todas pecavam contra o princípio alardeado da "arte pela arte".

Quanto à poesia parnasiana, mais dedicada ao princípio da "arte pela arte", foi prenunciada pelo próprio Machado de Assis em seus poemas estilo clássico, no que o parnasianismo tem mais de clássico, perdendo, pouco a pouco, os matizes românticos de expressão. Legou-nos, o Parnasianismo, grandes nomes e magníficas obras, citando-se: Alberto de Oliveira (1857 – 1937) – o mais épico, Olavo Bilac (1865 – 1918) – o mais lírico e popular, Raimundo Correia (1859 – 1911) – o mais filosófico e Vicente de Carvalho (1866 – 1924) – de inspirações marinhas.

Quando Bilac estreou com suas Poesias, já o Parnasianismo era alardeado por Alberto e Raimundo; quanto à uniformidade de sua expressão estética, foi o mais equilibrado dos parnasianos brasileiros.

Ergue-se o nome de Luís Delfino (1834 – 1910), altamente considerado tanto pelos últimos românticos, como por parnasianos e simbolistas.

O Simbolismo, na realidade, é precursor do Modernismo, nascido de uma reação contra todos os movimentos anteriores; último movimento literário brasileiro em que a influência das Letras portuguesas fez-se sentir entre nós. Antônio Nobre, com Só (1892); Guerra Junqueiro, com Os Simples (1892)... O Simbolismo foi uma reação espiritualista ao Naturalismo, encontrada num prefácio do livro Cantos Modernos (1889), de Farias Brito (1862 – 1917), no qual era exaltado o idealismo estético, o apelo à influência da música e à importância da poesia. Seguiram-se poetas que marcariam uma nova era literária: Cruz e Sousa (1861 – 1898) e Alphonsus de Guimarães (1870 – 1921).

De Cruz e Sousa, Missal e Broquéis, cuja riqueza, sonoridade e fantasia de ritmos e imagens em poética ainda parnasiana, de um filho da raça negra (o africanismo só posteriormente tomaria impulso), chamaram a atenção. Sua figura isolada projetou esse isolamento em sua obra. Outra figura isolada foi Alphonsus (Kiriale – 1902).

Chegou Mário Pederneiras, que introduziu, sem alarde, o verso livre, que posteriormente veio a ser consagrado pelo Modernismo: Ronda Noturna – 1901, Histórias do meu casal –1906 e outros. Mocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque, foi o único romance suportável legado pelo Simbolismo, no dizer de Amoroso Lima.

Como visto, os versos livres já se ensaiavam sorrateiramente e um movimento de acentuado nativismo rebrotava, caracteristicamente eclético, pois foi um período de coexistência "pacífica" entre simbolistas, realistas e parnasianos – foi o Pré-Modernismo, onde pontearam: Afonso Arinos (Pelo Sertão – 1902), Euclides da Cunha (Os Sertões - 1902), Domingos Olímpio (Luzia Homem – 1903)., Lima Barreto ( Recordações do Escrivão Isaías Caminha – 1909, O Triste Fim de Policarpo Quaresma – 1915, Afrânio Peixoto (A Esfinge – 1911, Maria Bonita – 1914...) e os poetas: Hermes Fontes (Apoteose – 1908), Olegário Mariano (Últimas Cigarras –1915), Augusto dos Anjos (Eu – 1912), que não se enquadra realmente no movimento coletivo, é uma reação individualista , adivinhando, talvez, aquilo em que mais tarde viria a se transformar o Modernismo (grande parte dele) – reações individualistas, muitas sem qualquer arte.

Os movimentos literários e artísticos em geral sempre estiveram interligados a movimentos políticos, filosóficos, científicos, ou seja, a grandes causas. Uma sensação de esgotamento dessas grandes causas começou a invadir os indivíduos e, com isso, nenhum sentir novo , nenhum neo-pensamento... era o vácuo interior e exterior... e, em meio ao marasmo, veio a guerra sem sentido, veio a destruição – onde patriotismo era desculpa – desencadeando o euforismo da catástrofe... rompeu-se o dique do conformismo e jorrou a enxurrada do polemismo destrutivo – o Modernismo, em sua fase inicial, foi nada mais que um movimento CONTRA. A preocupação de agredir a velha guarda literária e de procurar uma originalidade a qualquer preço, dominou o ambiente e três grupos de escritores surgiram: os passadistas, os modernos propriamente ditos e os independentes.

Os passadistas insurgiram-se contra o movimento; a Academia Brasileira de Letras, obra da geração anterior, ficou sendo o reduto dos mesmos. Os modernistas logo se dividiram em: dinamistas, primitivistas, nacionalistas e espiritualistas – uma divisão meramente didática e que tinha em Graça Aranha o entrelace das duas facções; ele estreara, em 1902, com Canaã, romance de tema social e estilo simbolista, fundindo todas as correntes coexistentes.

Os independentes nem se classificavam entre os modernistas, pois os combatiam; entre eles: Monteiro Lobato(1882 – 1948) , Raul de Leoni (1895 – 1926), Humberto de Campos (1886 – 1934), Martins Fontes (1884 – 1937).

Monteiro Lobato foi o mais popular dos modernistas.; criou o tipo literário Jeca Tatu, o livro de contos Urupês(1918)... Humberto de Campos seguiu a trilha de Coelho Neto – individualista. Raul de Leoni foi um poeta aristocrático e publicou Luz Mediterrânea (1922), ano em que espocava a revolução modernista – uma despedida do passado, uma saudade...Martins Fontes flutuou entre os movimentos praticamente coexistentes (Verão – 1917)

O Movimento Modernista em si espocou em 1922. Em 1912, Oswald de Andrade regressava da Europa, onde, em Paris, tomara conhecimento do "Manifesto Marinetti" – uma pregação futurista do compromisso da Literatura com a nova civilização técnica, de combate ao academicismo, exaltando o culto à palavra livre. Chegava ele com as idéias borbulhando, remexidas pelo tal do manifesto, aliando-se a isso uma certa incapacidade sua para metrificar; compõe, então, um poema em versos livres, que provocou tanta celeuma e acabou perdido,... (Último passeio de um tuberculoso pela cidade, de bonde)- quando mostrado timidamente, era motivo de zombarias e logo perguntavam pela métrica e rima.. O desejo de atualizar as Letras nacionais estava no ar. Desapercebidamente, fatos iam se sucedendo, sem muito alarde, que iam causando modificações não conscientizadas, tal como a 1ª exposição de pintura não acadêmica do Brasil, em 2 de março de 1913 – eram quadros expressionistas de Lasar Segall. Segue-se a de Anita Malfatti, também regressa da Europa, em maio de 1914 – uma amostra da moderna escola alemã, que levou às últimas conseqüências o Impressionismo (ela viera da Escola Holmer Boss, onde tinham sido realizadas as primeiras experiências estéticas do cubismo – o 1º NU CUBISTA fora pintado por Anita.

Oswald de Andrade, à frente de uma revista tumultuária e polêmica - O Pirralho - pronuncia-se em prol de uma pintura nacional (1915), ano em que Luís de Montalvor (diplomata e poeta português) e Ronald de Carvalho idealizam uma revista luso-brasileira – Orfeu – que comunicasse as novas européias.. Um ano depois, Monteiro Lobato escreve carta denunciando que Oswald andava divulgando, pela revista "Vida Moderna", colaboração futurista e o eco de tal revelação reboa na ABL, através de Alberto de Oliveira, que estava a recepcionar Goulart de Andrade que"gerira a herança parnasiana sem nada acrescentar-lhe", que dirigiu-lhe as seguintes palavras: "Assim como por vossas mãos vieram até nós antigas formas literárias, virão amanhã as novas idéias de um novo período social." – era o epitáfio do Parnasianismo.

A 21 de novembro de 1922 dá-se a aproximação entre Oswald de Andrade e Mário de Andrade; Havia uma conferência no Conservatório Dramático e Musical sobre a participação do Brasil na guerra, pelo Secretário da Justiça do Governo de S. Paulo, Elói Chaves; ao final, Mário de Andrade discursa com juvenil entusiasmo; Oswald impressiona-se e procura publicar o pronunciamento, pelo que até brigou a tapas com um colega jornalista e, no dia seguinte, publicava, no Jornal do Comércio, o discurso de Mário, que se tornou seu amigo, a partir de então, sempre juntos, trocavam idéias sobre a vida cultural. Mário publica seu !º livro de versos: Há uma gota de sangue em cada poema e no poema "Inverno", os seguintes versos:

De noite tempestuou
chuva de neve e granizo...
Agora, calma e paz.
Somente o vento
continua com seu oou...!

A rima de tempestuou com oou causou espécie e foi o suficiente para interessara Oswald

O poema Moisés de Menotti Del Picchia á censurado, por conter trechos de prosa vil... Seu Juca Mulato foi mais bem aceito, pela temática nacionalista, por não romper fortemente com as normas tradicionais, embora seu título demonstrasse um certo atrevimento na colocação da palavra mulato, que Nestor Vítor, sempre compreensivo às inovações, classificou de mau gosto.

Outras obras começaram a assinalar a presença de um espírito novo; A Cinza das Horas, de Manuel Bandeira, foi considerado por Nestor Vítor, como livro de transição; Nós, de Guilherme de Almeida; Cerrilhões, de Murilo Araújo...

A citada exposição de Anita Malfatti, apesar de causar alguma estranheza, ia prosseguindo bem até que Monteiro Lobato publica um artigo afirmando ser a obra da pintora produto da paranóia ou da mistificação; foi o suficiente para causar grande reboliço, com devolução de quadros já vendidos, ameaças de destruição de telas... o que acarretou os artistas do novo movimento que surgia cerrarem fileiras em torno da pintora e transformá-la, conforme depoimento de Menotti, em chefe da vanguarda do movimento modernista. A partir de então, ao redor dela, temos: Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Agenor Barbosa e outros, jovens que organizariam e participariam, depois, da Semana da Arte Moderna.

A guerra prossegue. O continente americano liberta-se da dominação européia e torna-se o eixo político-econômico do mundo. O Brasil progride: saneamento econômico de Campos Sales, saneamento público de Osvaldo Cruz, urbanização de Pereira Passos, cresce a arquitetura, instala-se a luz elétrica e a radiotelegrafia... Em 1919, Vítor Brecheret, que fora estudar escultura em Roma, retorna e seu antigo professor Ramos de Azevedo no Liceu de Artes e Ofícios de S. Paulo, permite-lhe instalar-se nos altos do Palácio das Indústrias, onde, visitando uma exposição de "maquettes" para o Monumento da Independência , um grupo de escritores e artistas foi informado pelo porteiro que lá em cima havia um escultor; o grupo era formaDO POR Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Hálios Seelinger e Menotti Del Picchia que se surpreendem , ao encontrarem Mário de Andrade e Monteiro Lobato visitando o escultor. Momento decisivo este para os inovadores, pois o escultor representa A 1ª VITÓRIA DO ESPÍRITO RENOVADOR e em todo 1920 ele é louvado e defendido contra qualquer menosprezo, conseguindo do governo estadual uma bolsa na Europa para ele, para onde parte em 1921. Os renovadores reúnem-se com freqüência: no atelier de Anita, na casa de Mário de Andrade, na "garçonnière" de Oawald de Andrade... o grupo cresce e surgem os versos de "Paulicéia Desvairada" ao fim de 1920 e o grupo se prepara para, em 1922, ano do centenário da Independência, fazer eclodir o movimento, que germinava em estufa. E a 9 de janeiro de 1921, por ocasião de banquete oferecido por Menotti no Trianon (de onde se lançavam candidatos ao governo paulista e nacional), cujo pretexto é a publicação de As Máscaras, de Menotti. Entre os oradores está Oswald de Andrade, que entrega ao homenageado sua máscara esculpida por Brecheret em nome dos intelectuais e artistas dissidentes. A fala assume aspecto de manifesto e acentua as divergências do grupo modernista e faz oposição aos demais. Era uma oficial declaração de ruptura com a antiga corrente literária e caberá a Menotti estabelecer as normas doutrinárias e estéticas, fixando o programa teórico da ação modernista, o que será publicado no Correio Paulistano de 24 de janeiro seguinte, sob o título Na Maré das Reformas; artigos de outros reformistas vão sendo, pouco a pouco, publicados, atacando, em geral, aos estilos do passado, poupando, exclusivamente, o Simbolismo, que até chegam a considerar inspiradora de muitas de suas atitudes e que sua estética embasa a deles. Oswald publicou, entre outros, artigo de Mário de Andrade, sob o título Meu Poeta Futurista, o que fez Mário ser discriminado por muitos, inclusive perdeu alunos, mas também fê-lo sair da "casca do ovo" e aceitar posição de comando no movimento, liderando o movimento literário com sua prosa, principalmente os artigos de teoria literária que analisam o Parnasianismo e seus autores; tais artigos aceleraram o processo e seis meses depois deles, realizava-se a Semana da Arte Moderna, já com muitos grandes escritores envolvidos no movimento e, a 29 de janeiro de 1922, O Estado de S. Paulo noticiava que, por iniciativa do escritor Graça Aranha, da ABL, haveria em S. Paulo uma Semana da Arte Moderna e que, de 11 a 18 de fevereiro, o Teatro Municipal estaria realizando uma exposição dos trabalhos dos artistas do Grupo – apresentação conturbada pelos conservadores.

A Semana de Arte Moderna, apesar da interferência dos opositores, alcançou seus objetivos: romper estruturas, criar algo novo e brasileiro na arte.

Cassiano Ricardo foi uma das mais fortes, originais e sérias figuras da poesia modernista. Borrões de Verde e Amarelo ou Vamos Caçar Papagaios e Martim Cererê (1928), conjunto épico de sua autoria, único talvez na poesia moderna brasileira, alcançou êxito raro e seu poder de inventividade e renovação poética foram num crescente.

A prosa da 1ª geração modernista foi mais fraca que a poesia, embora, em geral. Os próprios poetas a tenham escrito.

A grande prosa moderna viria do nordeste, dando continuidade a A Bagaceira, de José Américo de Almeida (1928). O movimento modernista concentrara-se mais no eixo Rio – S. Paulo, com irradiações para Minas e Rio Grande do Sul; com a 2ª geração, generalizou-se mais e a prosa, principalmente a nordestina, revelou-se de primeira linha, devendo-se a Gilberto Freire a extensão desse movimento ao norte e nordeste. Exemplos dela temos em: José Lins do Rego, com O Menino do Engenho (1932); Raquel de Queirós, Graciliano Ramos, Jorge Amado e outros.

A grande revelação da crítica modernista foi o pernambucano Álvaro Lins..

No sul, vários expoentes também da prosa foram despontando: Érico Veríssrmo, com sua obra universal e, ao mesmo tempo, popular: Clarissa, Olhai os Lírios do Campo, O Resto é Silêncio, O Tempo e o Vento (epopéia gaúcha)... Mário Quintana e outros.. No sudeste, a 2ª geração de prosadores também deu grandes nomes: Otávio de Faria, Lúcio Cardoso, Gilberto Amado, Adonias Filho... Flávio de Carvalho, Sr.ª Leandro Dupré, Diná Silveira de Queirós, Ribeiro Couto, marques Rabelo, Orígenes Lessa, Antônio Alcântara Machado Ciro dos Anjos, Cornélio Pena... No morte, temos Peregrino Júnior, Raimundo Morais... No nordeste, dois contistas de segunda geração devem ser citados: Luís Jardim e Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Em 1930 mais ou menos, surgira, pois, a segunda geração modernista, quando o Brasil sofria novas agitações políticas; Augusto Frederico Schmidt, que reagira, em 1928, contra o modernismo, introduziu, na poesia moderna, uma amplitude e um lirismo românticos, restaurando os grandes temas eternos: Deus, destino, mar, solidão..; em 1956, seus livros anteriores foram reunidos em Poesias Completas.

Carlos Drummond de Andrade, em 1930, editou Alguma Poesia, e toda sua obra está hoje reunida em Fazendeiro do Ar e Poesia até agora (1954). Ele fundiu o trágico do cotidiano com uma poética vigorosa, adquirindo, o verso, o mais agudo poder de penetração verbal.

Murilo Mendes assemelha-se a Drummond, mas convertendo-se ao catolicismo, imprime a seu verso um sentimento cristão intenso, mas não convencional, inovador. São dele: Poemas (1930), Tempo e Eternidade (1935). Seu companheiro, Jorge de Lima, nordestino, de inspiração instintiva e não intelectiva, de influência supra-realista; seu poema Essa Nega Fulo tornou-se famoso, como expressão do africanismo modernista, cuja mais saliente expressão é o pernambucano Ascenso Ferreira, com seu livro Catimbó.

Tasso da Silveira, que aliou-se ao movimento ainda na primeira leva; um espiritualista que, com a revista "Festa", soube aliar fé católica viva a uma forma poética moderna. Barreto Filho, outro componente do grupo, publicou novela – Sob o Olhar Malicioso dos Trópicos – 1929 – dedicando-se depois à crítica.

Vinícius de Moraes, com sua poesia hermética, concentrada, penetrante, dramática... Obras suas: O Caminho para a Distância – 1933;... ; poemas esparsos, que resgatam para o modernismo o soneto e a balada.

Cecília Meireles, a grande voz feminina do modernismo.

A 3ª geração modernista já se confunde com mo movimento neo ou pós-modernista e não há fronteiras precisas entre os dois movimentos. Os sociólogos costumam atribuir, por volta de 15 anos, a cada geração; em se levando em conta tal valor numérico, a partir da Revolução Modernista, que se iniciou antes da Semana de Arte Moderna, a 2ª geração foi por volta de 1930 e a 3ª, mais ou menos, em 1945 e após morte de Mário de Andrade, mas que já se apresenta com novo espírito e nova estrutura praticamente, merecendo ser considerada como líder de novo movimento, não se trata mais de uma nova geração dentro do modernismo, pois, embora não contra ele.

Se o modernismo nascera de um choque, o neo-modernismo nasceu de uma entrega, uma transmissão voluntária de poderes, de uma geração para a outra. O modermismo fora uma insurreição, uma guerra estética com objetivo de marcar a diferença entre duas gerações, duas concepções estéticas, entre a apatia e o dinamismo, entre o conservadorismo e repetitismo e a inovação.

O neomodernismo surge de manso, sem grandes chefes, sem manifestos, sem o carÁter de cruzada, sem buscar chamar a atenção do público, que também a tudo estáava indiferente... a dIfícil fase política por que passava o país, levava ao receio do demonstrar interesse por algo e ser julgado, talvez, "inimigo público"; a sobrevivência, em todos os seus sentidos, é o mais importante para a população, simplesmente "ignoravam" os artistas e literatos, eles que se entendessem ou se desentendessem à vontade...

O movimento é, assim, restrito à classe cultural, que talvez também desgastada pela luta e pela injustiça, não estivesse também querendo se expor muito.

Surge também, ao fim da grande guerra, uma era técnica, que deslocou o centro de interesse dos povos para um domínio da natureza pelo homem, mas através do progresso técnico e industrial – é, na realidade, uma forma de desumanização pela máquina., onde o intelectual já não cabe, pois intelecto é do ser humano... se ele se desumaniza... o homem troca a sua inteligência pela habilidade, que é animal simplesmente.

É um momento mais indefinido que consciente, característico de transição, em que os próprios literatos não tinham ainda consciência do que precisava mudar, só sabiam que havia necessidade de mudar algo; não tinham noção do objetivo a ser alcançado com a mudança.

Os considerados pelo modernismo como passadistas, voltara a ser exaltados; o neomodernismo foi muito mais pelos valores eternos do que pelos modernos; o neomodernismo, de certa forma, mesmo inconscientemente, um antimodernismo, pois o neo modernismo foi uma libertação do moderno: não se contrapôs a ele, mas não o valorizou. Os neo modernistas eram mais profundos que os modernistas, vão mais ao âmago das coisas. Foi uma geração de "velhos", que se gabou da experiência e saber, não da jovem impetuosidade. Uma outra característica neomodernista é o da disciplina, não da liberdade como os modernistas, o que também não implica em retorno a outros moldes anteriores ao modernismo.

O neomodernismo é uma superação do modernismo, mas não sua negação; a liberdade já não é uma necessidade essencial, mas sim uma possibilidade quando útil; buscam, então, novos dogmas, nova disciplina...

A liberdade convidara à facilidade e levou a ser considerado Arte, tudo que qualquer um se lançasse a fazer e dizer que era a sua Arte... Não deveria ser por aí... Até a noção de que Arte é criação de beleza fora esquecida por muitos...

A técnica, o saber fazer, de certa forma, até busca resgatar esse elo perdido; para ter a liberdade de fazer como quer, tem que conhecer as regras e saber como pode alterá-las com resultado positivo, ter sensibilidade para o belo, pois Obra de Arte não é local simplesmente de despejo de emoções e mais nada. Liberdade não é licença para se fazer o que se quer sem respeito a nada ou ao outro. Liberdade exige disciplina para ser usada.

A inspiração e a intuição são mola para a criação estética, não a invenção..

O próprio Mário de Andrade, em 1942, parecia um arrependido, pelo caráter aristocrático que o modernismo assumira, afastando a verdadeira arte do povo em geral; era preciso possibilitar o encontro "entre o gosto convencional e até medíocre, às vezes, do grande público e as exigências qualitativas dos autênticos criadores da beleza, impasse que só o gênio supera". (Alceu Amoroso Lima).

Versos são as linhas do poema, logo ao versos são as partes do complexo texto literário, os quais, em seu conjunto, formam o poema – um corpo; para animar esse corpo, há necessidade da alma: a poesia. (é a energia vital literária de um poema).

Há prosa poética, ou seja, um conjunto de frases formam um texto literário, cuja energia vital também é a poesia.

Há textos em prosa, cuja energia vital não é a poesia, é uma energia diferente, específica para aquele tipo de texto, mas que também dá-lhe vida, torna-o interessante, agradável aos olhos, aos ouvidos, à mente que o interpreta...

Pode haver versos sem poesia, como poesia sem versos (Quanta poesia pode haver num olhar, mas não é em qualquer olhar que há poesia); mas versos sem poesia serão, por acaso, obra poética?...

Prosa sem alma, sem sua essência específica, será por acaso, um texto literário?

Toda Arte tem ritmo, movimento, sonoridade, colorido, é preciso sensibilidade para percebe-los, para bem combiná-los e não simplesmente usá-los, sem a perfeição da boa combinação.

O resgate dessa valorização dos elementos contextuais e sua combinação foi uma das bandeiras do pós-modernismo, que aproveitou o centenário de nascimento de Alberto de Oliveira, em 1957, para esse resgate; recompor a poesia com o verso.

O poema mais marcante da nova orientação poética parece ter sido O Rio, de João Cabral de Melo Neto

Na prosa, o neomodernismo, é um tanto uma volta ao realismo e ao naturalismo e se iniciou um pouco antes, ainda dentro mesmo do modernismo, com a literatura regionalista, uma prosa mais objetiva, voltada para os problemas locais; a prosa neomodernista se distingue não tanto pelo estilo, mas pelo tema e os limites entre prosa e poema são bem demarcados:a poesia é poética e a prosa é prosaica.

Assim se sucedem os movimentos, de geração em geração, ora pesando mais um prato da balança, ora pesando mais o outro; mas, normalmente misturando um pouco do outro sempre e é nessa mistura que estão as diferenças de época; esse movimento tem importância relativa, importantes são os autores e suas obras, aliás, importantes mesmo são as obras, que ficam, os autores só são imortais quando elas os imortalizam , para a eternidade, ou por algum tempo... quem o sabe?

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Bibliografia pesquisada:

1 - Anotações da autora das palestras do Prof. Agenor Ribeiro

2 - Quadro Sintético da Literatura Brasileira - Alceu Amoroso Lima

3 - A Literatura no Brasil - coleção sob a Direção de Afrânio Coutinho

(Publicado no Jornal Ecos - Edição nº 28 - 10.11.2005)

 

 


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